21.9.2008


A forma e a essência

Lc. 18:9-14
 
Reverendo Valdemar de Souza

 

A sabedoria popular comunica em pequenas frases, verdades sobre a FORMA e a ESSÊNCIA do homem, ou seja, o que se vê e o que não se vê no ser humano.

 

Por exemplo, há um ditado popular que diz: “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento”. Este define alguém que se mostra bonito e bom por fora, mas no seu interior é vazio e podre.

 

Há outro que diz: “Quem vê cara, não vê coração”. Ou seja, nem sempre o que se vê, combina ou tem a ver com o que não se vê.

 

Jesus também usou frases muito interessantes neste sentido. Disse: “Pela árvore se conhece o fruto”. E aplicou “A boca fala do que está cheio o coração”.

 

Foi com este propósito, que Jesus contou a Parábola do Fariseu e do Publicano.

 

Aliás, Jesus contou muitas parábolas. E, em todas há ensinamentos profundos e importantes para a vida.

 

Você se lembra de alguma parábola contada por Jesus?

 

·         O Filho Pródigo declara com toda a sua dramaticidade o grande amor de Deus pelos que estão perdidos.

 

·         O Bom Samaritano tem como lição principal despertar a consciência do homem para a prática do amor ao próximo.

 

O texto que temos hoje é também muito conhecido: A Parábola do Fariseu e do Publicano.

 

O que está por trás desta estória? Quem são os seus personagens? O que a Parábola pode de fato nos ensinar?

 

Não devemos olhar para esta parábola com um espírito crítico, prevenido, escolhendo o herói e o vilão; o mocinho e o bandido e, até nos colocando confortavelmente no lugar de um deles.

 

Aprendemos com esta parábola que:

 

I – É uma tremenda mancada SER um Religioso Assistencialista

 

O que é um religioso assistencialista?

 

É claro que estamos nos referindo ao sentido negativo do termo. E, neste sentido, um religioso assistencialista é aquele que se projeta exibindo as suas boas obras, com o fim de agradar a Deus e alcançar as bênçãos divinas.

 

A parábola conta que o fariseu vai ao templo e, em vez de orar, porque ali é o local de oração, o que faz na verdade é uma prestação de contas. E, assim, não omite absolutamente nada. Enumera todos os deveres de um homem verdadeiramente piedoso e até mesmo aquilo que não constitui dever.

 

Na verdade, ele se projeta como o modelo de pessoa piedosa.

 

Diz o texto que “Em pé, orava de si para si mesmo”.

 

Normalmente oramos de nós para Deus. O fariseu então ora de si para si mesmo.

 

Desta forma, ficou bem à vontade para revelar tudo o que era:

 

“Que pessoa de bem eu sou! Que crente legal eu sou! Olha Senhor eu estou na Igreja! Estou dando o dízimo! Estou trabalhando para o Senhor!”

 

Qual o grande objetivo do fariseu? Ficar de bem com Deus, com o fim de ganhar os seus favores.

 

Quantos hoje tentam ser cristãos, apoiando-se nos seus méritos pessoais.

 

Aprendemos que se somos cristãos, os méritos são de Jesus. Foi ele quem nos alcançou com a sua graça e misericórdia.

 

Foi ele quem morreu por mim e por você para que pudéssemos viver espiritualmente para assim desfrutarmos da nova vida, da paz “que excede a todo o entendimento”, do verdadeiro amor e da esperança de vida eterna.

 

A nossa fé deve ser colocada exclusivamente em Jesus e não em nós, nos nossos méritos, na nossa capacidade de fazer determinadas coisas.

 

Aprendemos com a Parábola que:

 

II – Não é coisa boa SER um Perfeccionista

 

É bem provável que esse fariseu tivesse traço de perfeccionismo. Ao contrário do que muitos pensam, o perfeccionismo é uma deformação que promove uma visão distorcida da vida em todos os sentidos. 

 

·         O perfeccionista define um padrão elevado para si e para todos os que estão à sua volta. Um padrão tão elevado que não consegue atingir.

 

Exige demais de si mesmo e das pessoas. Diz: você precisa fazer, ter, realizar, etc.

 

·         Tem dificuldades de manter relacionamentos profundos e quando os tem, visa apenas medir o seu desempenho pessoal.

 

·         Procura aceitação em áreas onde pode medir o seu sucesso. Diz: você viu o que eu fiz?

 

 

·         Sente-se um ser superior aos demais, por isso acaba sendo arrogante, não escuta os outros. É uma pessoa do tipo “cabeça dura”.

 

·         Quando falha acaba sendo cruel para consigo mesmo a ponto de odiar-se. Diz: como pude fazer isto? Isto não é do meu feitio.

 

 

·         É um sujeito minucioso e detalhista nas coisas.

 

·         Vive a tirania dos deveres. É ansioso, sensível e legalista.

 

 

·         Quase sempre nega o sentimento dos outros.

 

Deus quer que busquemos um padrão de excelência na nossa vida, mas não o perfeccionismo. Nós não somos perfeitos e nunca seremos. Mas, somos pecadores, falhos e, através da santificação, buscamos um padrão de excelência no nosso ser.

 

 

Aprendemos com a Parábola que:

III – Não é justo e nem sadio projetar a própria sombra no outro

 

O que o fariseu faz é olhar o publicano que está lá traz e o escolher como espécie de bode expiatório para aliviar a sua culpa. “Não sou como os demais homens: roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano”.

 

O fariseu tem um lado sombrio, como qualquer pessoa pode Ter. Eu gosto de chamar esse lado sombrio de “quartinho de despejo”. Nesse “quartinho”, jogamos as nossas decepções, frustrações, medos, derrotas, fraquezas, tristezas, ressentimentos, mágoas.

 

Precisamos conhecer o que está dentro desse quartinho e isto equivale a buscarmos o autoconhecimento, ou seja, conhecer a nós mesmos.

 

·         Com o propósito de alcançarmos a cura e a eliminação de todas essas pendências;

 

·         Mas também, para que essa sombra, não seja projetada nos outros.

 

 

O fariseu tem tanta coisa do que se orgulhar, mas falta a coragem de encontrar-se consigo mesmo. Apesar de repetidas vezes celebrar o seu “eu”, quando se trata realmente da sua pessoa, prefere apontar para o publicano que está atrás dele. Não tem coragem de olhar para si mesmo, de encontrar-se.

 

Talvez esse recurso seja um “mecanismo de defesa”. Dizemos que a melhor defesa é o ataque.

Na verdade, não temos que ficar arrumando bodes expiatórios para as nossas culpas.

 

Às vezes somos como o fariseu:

 

·         Queremos nos justificar perante Deus, com tudo o que somos e fazemos. Pensamos: quem sabe serei mais abençoado.

 

·         Somos perfeccionistas, na medida em que o nosso sucesso seja medido, avaliado e celebrado. Viu como eu me saí?

 

 

·         Projetamos-nos outros as nossas “tranqueiras”, para quem sabe nos justificar e provar que somos melhores.

 

A Segunda parte da Parábola é realmente interessante. Aprendemos com a postura do Publicano:

 

1. UMA GRANDE LIÇÃO DE HUMILDADE

 

As suas atitudes e as suas palavras nos ensinam como devemos nos dirigir a Deus: “O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: ò Deus sê propício a mim, pecador!” (vs. 13).

 

Não é fácil para o homem se colocar humilde diante Deus. Em geral, cheio de si, considera-se o “dono da verdade”, tem opinião definida e assim por diante.

 

Mas, a postura do publicano é exatamente a referência de espiritualidade humilde que todos nós devemos copiar e praticar.

   

2. UMA LIÇÃO DE RECONHECIMENTO

 

Reconhece-se um pecador, indigno de receber o perdão ou qualquer outra graça. Ao mesmo tempo, ele reconhece que Deus pode tornar possível todas as coisas: a vida, a salvação, etc.

 

João Calvino disse: “A consciência do pecado já é obra da graça de Deus”.

 

3. UMA LIÇÃO SOBRE JUSTIFICAÇÃO

 

Jesus disse: “Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta, será humilhado; mas o que se humilha será exaltado” (vs.14).

 

O teólogo Alfredo Borges Teixeira assim definiu Justificação: “É o ato pelo qual Deus imputa ao crente o sacrifício vicário e a justiça também vicária de Cristo”. 

 

Em outras palavras, é Deus quem nos justifica, através do seu Filho – Jesus Cristo.

 

Deus nos olha através de Jesus Cristo.

 

Deus nos perdoa, nos salva e nos santifica através de Jesus Cristo.

 

Deus nos abençoa através de Jesus Cristo.

 

Deus nos declara justos através de Jesus Cristo.

 

A doutrina da justificação envolve mais do que o perdão dos pecados. Um juiz pode perdoar um criminoso.

 

Todavia, jamais um juiz conseguiu que um criminoso perdoado se tornasse um justo; e nem o adotou em sua família; e nem lhe conferiu um herança; e também nunca lhe deu o seu nome.

 

Tudo isto é possível através de Jesus Cristo, por obra de sua graça.

 

O salmista Davi, na sua sincera oração disse: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro em mim um espírito inabalável” e “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, o Deus” (Sl. 51:10,17)

 

Conclusão

 

Entre nesse quartinho sombrio da sua vida, com Jesus. Peça a ele que te ajude nesse momento de autoconhecimento. Humilhe-se diante dele, reconhecendo-se pecador. Entrega a sua vida inteira, inclusive o quartinho, para que ele seja o teu salvador e senhor. Deixe a vida de vítima e assuma uma nova vida, uma vida cristã vitoriosa.

 

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Sermão pregado no culto noturno de 28 de setembro de 2008

 

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