18.5.2008
Igreja perseguida
Bacharel em
Teologia e presbítero
Marcos Henrique Valle de Castro Camargo
A mensagem de hoje começou antes mesmo de minha fala. Começou com oscânticos bem elaborados sobre o tema e bem executados. Começou com asorações, com a citação da Somália e com o clima geral proporcionado pelaigreja. Quero ser apenas instrumento de Deus para continuar esta mensagem.Falar sobre igreja perseguida é falar a partir da origem: a perseguição aopróprio Jesus. Ele foi perseguido desde bebê. Em Mt. 2:16-18 nós vemosHerodes furioso por ter sido enganado pelos magos. Em sua fúria ordenou amorte de todos os meninos de menos de dois anos, em toda a Judéia, paraver se conseguia matar Jesus. Pequenino, inocente, nascido em manjedoura ejá perseguido, ameaçado de morte. Seus pais foram obrigados a fugir para oEgito. A coisa não pára aí. Durante seu ministério terreno, o evangelista Lucasnarra o episódio em que procuraram atentar contra a vida de Jesus,planejando precipitarem-no montanha abaixo (Lc 4:29-30). Multidão furiosacom a intenção de jogar Jesus monte abaixo. Há porém um detalhe que nemtodos percebem. O texto diz que Jesus, passando por entre eles, retirou-sedali. Quem conseguiria escapar de multidão furiosa como essa? Jesusconseguiu porque usou de seus poderes sobrenaturais, mostrando claramentesua parte divina, evidenciando que era Deus. Por ocasião de sua prisão no Getsêmani, várias coisas aconteceram ao mesmotempo. Perseguido sob orientação de Judas Iscariotes, Jesus foi presopelos soldados, traído por Judas, abandonado por todos os discípulos epouco depois negado por Pedro. Ressurreto, antes de partir deixou aadvertência aos discípulos: “Sereis perseguidos por causa do meu nome”. O livro de Atos narra a formação da igreja cristã, não sem grandesperseguições. Atos 4:1 a 20 mostra Pedro e João presos por testemunharemsua fé. Logo depois vemos o primeiro mártir do cristianismo: Estevão,apedrejado e morto pelo pecado de confessar sua crença em Jesus. No capítulo 12 de Atos lê-se que Herodes resolve matar Tiago, o primeirodiscípulo a morrer pela fé. Sentindo a aprovação do povo, tencionava matarPedro também, mas uma intervenção de Deus liberta Pedro da prisão. Todos os discípulos de Jesus morreram por causa de sua fé, exceto Judas(remorso seguido de suicídio) e João que teve morte natural depois doexílio que sofreu na ilha de Patmos, ocasião em que Deus revelou-lhe o queaconteceria nos últimos tempos. A perseguição à igreja continuou,implacável. Criado na fé aos pés do apóstolo João, Policarpo representa o último elocom aqueles que haviam visto Jesus pessoalmente. Foi bispo da igreja deEsmirna. Pregou o cristianismo durante cinqüenta anos. Em 156 d.C., aos 86anos, foi morto porque se recusou a negar a Cristo. Antes de morrer,respondeu aos seus opositores: “Durante 86 anos eu O confessei; por queiria negá-lO agora?” Mencionemos agora a fidelidade de uma mulher ao longo da história.Perpétua, nascida em Cartago, pertencia à nobreza daquela importantecidade do império romano. Aos 22 anos, Perpétua aceita Jesus. Abandonadapelo marido por causa da fé que abraçara, foi questionada pelo pai, queexigiu sua retratação. Ela não concordou, dizendo que sua fé em Cristo eradefinitiva. A firmeza de fé que demonstrava levou sua escrava Felicitas aconverter-se também a Jesus. Como punição, as duas foram despidas ecolocadas na arena para enfrentarem um novilho enlouquecido que astrucidou. A multidão que assistia à tortura não agüentou a cena jorrada asangue e gritava: “Basta, basta...” Com ferimentos mortais, Perpétuagritou: “Transmitam a Palavra aos irmãos e irmãs, fiquem firmes na fé; nãopermitam que nosso sofrimento seja uma pedra para vocês!”. Morreu logo emseguida. A igreja prosseguia firme na fé e no testemunho. Por volta de 330 d.C.,contudo, aconteceu de Constantino, imperador, converter-se à fé cristã, etornar o cristianismo a religião oficial do governo. Grande desastre! Oscristãos, vendo-se apoiado pelas instituições oficiais, acomodaram-se.Governo e clero deram as mãos. O cristianismo passou de perseguido aperseguidor. Grandes distorções doutrinárias começam aqui. Governo eigreja fazem a política da troca de favores. A fé desaba. No século dezesseis a fé reformada vem a abrir os olhos de muitos para osabsurdos que eram praticados, totalmente ao arrepio do texto bíblico, taiscomo a venda de indulgências para perdoar pecados. O sangue de Cristoperdera sua função remidora. O perdão de pecado virou produtomercadológico. A proposta da reforma do século dezesseis foi retomar o evangelho em suapureza original, apostólica. A partir de então iniciam-se as chamadasmissões protestantes para anunciar o evangelho a todas as partes do mundo.O mundo conheceu o século dezenove como “o grande século” da obramissionária. Aparecem grandes nomes como Charles Studd e Livingstone naÁfrica, Hudson Taylor na China, Lloyd-Jones, Mood, Spurgeon. Todos elesanunciando o evangelho com muitas perseguições, privações, grandesdificuldades e muitos opositores. Claro que os frutos também vieram:Spurgeon chegava a ter seis mil pessoas em suas pregações. No auge da influência comunista, liderados pela então União das RepúblicasSocialistas Soviéticas, os países do leste europeu formavam a chamada“cortina de ferro”, que combateu tenazmente o cristianismo. Pregadorespresos anunciando o evangelho eram torturados por sua fé. Um dessesobreiros foi intimado a negar seu Cristo. Recusou-se. Seu filho de onzeanos teve então, na sua frente, um dos dedos decepados. Continuourecusando. A mão do filho foi decepada. Chorando, o pai disse ao filho quenão agüentava mais, que ia negar Jesus para evitar tamanho sofrimento, aoque o filho respondeu: “Não negue, papai. Prefiro morrer a ter um paicovarde”. As câmaras frigoríficas também eram usadas como tortura. Colocava-se nelaso cristão até que aparecessem os primeiros sintomas de morte porcongelamento. Seu corpo era retirado e aquecido novamente para querecobrasse a consciência, quando então era novamente intimado a negarJesus. Se o cristão confirmasse sua fé, era novamente colocado na câmara,e assim sucessivamente até que negasse a fé ou morresse por congelamento.Nas prisões da cortina de ferro celebrava-se a “Santa Ceia” para oscristãos: o “pão” era representado por fezes de outros presos, e o “vinho”por urina, que os presos eram obrigados a ingerir se não negassem sua fé. A ideologia comunista sofreu então um “desmanche” com a extinção da UniãoSoviética mas a perseguição à igreja continuou. No Paquistão e noAfeganistão não se permite entrada de missionários. Em certos paísesmuçulmanos o missionário até pode trabalhar, mas se algum cidadãoconverter-se a Cristo será sumariamente morto. Hoje a perseguição existe. A missão “portas abertas” tem testemunhado aolongo dos anos a realidade da perseguição, umas declaradas, outras sutis.No Brasil não se tem idéia da gravidade do problema porque nosso país étotalmente aberto ao nome de Jesus: vemos esse nome nos postes, nosoutdoors, nos vidros de carro. Mal ou bem o nome de Jesus é falado na TV,no rádio, nas milhares de igrejas. E quanto ao amanhã? Bem, não se pode esperar por dias melhores. Tenho pormim que daqui para frente não haverá lugar para o “crente em cima domuro”. Ou você veste a camisa de Cristo ou estará contra Ele. Mesmo numpaís livre como o Brasil, o evangelho é recebido com ceticismo. Todosconhecem seus direitos, os incrédulos sabem que podem defender suasideologias mesmo dentro das igrejas, por força da liberdade constitucionaldo pensamento. Se o Espírito Santo não estiver marcantemente presente emsua pregação, ela será mais um discurso ao vento, proferido no Largo doRosário e apenas respeitado pelo seu direito de falar. Não podemos ignorar a advertência de Jesus em II Timóteo 3:12 – “Ora,todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serãoperseguidos”. Hoje você cantou “eis-me aqui”, você cantou “usa-me como ponte” ( e nãocomo muro, que impede a comunicação); a hora de se entregar plenamente éagora. Vale a pena assumir um sério compromisso com Cristo, pois suaPalavra afirma que é inimaginável o que Deus preparou para aqueles que oamam, desde já e no porvir. Se você está do lado de Jesus, não hesite em fazer como Isaías - diga hojemesmo: “Eis-me aqui, envia-me a mim” (Isaías 6:8).Deus nos abençoe. Amém.
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