UMA ABORDAGEM DO SALMO 77 QUANTO ÀS NOSSAS
CRISES E FRUSTRAÇÕES A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA
BÍBLICA SOBRE A INSTABILIDADE DA NOSSA FÉ
Aula ministrada no dia 31 de janeiro de 2010, na Escola Dominical da 1ª Igreja Presbiteriana
de Campinas
Reverendo Melquisedeque de Castro
Síntese sobre Salmos
Salmos
significa “cânticos”, palavra original da Septuaginta (antiga tradução da grega
do Antigo Testamento), feita pelos 72 rabinos, em etapas entre os 3 e 1 séculos
em Alexandria.
Por
dezoito séculos o Livro dos Salmos ocupou o lugar central da devoção cristã. A
partir do século dezenove, através dos novos métodos críticos e científicos, o
Livro deixou de ocupar seu lugar, assumindo lugares secundários.
O livro dos Salmos é classificado
por gêneros:
- Hinos de louvor; Sl. 8; 24; 29...
- Lamentos; 10, 13, 25, 35, 39, 51,
86,102...
- Ações de graças; Sl. 18; 66;
107...
- Cânticos de confiança; Sl. 23;
121; 131...
- Reais; Sl. 22; 24, 93...
- Sapiências; Sl.1; 15; 37; 49...
Sobre a importância dos
Salmos em nossa vida, Anastásio (299 – 373 d. c.), famoso teólogo e bispo de
Alexandria afirmou: “a maior parte da Bíblia fala conosco, os Salmos falam por
nós”.
Sobre
nossas orações, ás vezes, superficiais e pseudo-piedosas, sendo assim
ineficazes, Calvino declara: “Elas não tem o sabor, a força, a paixão e o fogo
que encontro no Saltério. São muito frias e rígidas”.
Sobre
a grandeza do Livro dos Salmos, Martinho Lutero declarou: “é uma pequena Bíblia
e o resumo do Antigo Testamento”.
Depois
de uma meditação simplificada a respeito do Livro dos Salmos e suas implicações
em nossas vidas, extraiamos algumas máximas do Salmo 77.
Salmo 77
O Salmo 77 é o típico
lamento; o salmista derrama perante o Senhor sua queixa (SL. 142.2). O salmista
nos mostra claramente, através de seu discurso de lamento, que está vivendo um
dos piores momentos da sua vida. É nítido na expressão angustiante: “a minha
alma se recusa a consolar”. (2b)
Esta coesão de
sentimentos tão inerentes em nós, seres humanos, angústia, tristeza, incerteza,
solidão e falta de fé, o leva a experimentar três marcantes realidades:
1- A oração parece não oferecer alívio
– (2, 3) ele busca por Deus, e não tem a resposta para tão grande agonia.
2- Insônia – (4a) insônia: “não me
deixas pregar os olhos”.
3- Dificuldade no desabafo – (4b) “nem
posso falar”.
Em meio a tamanho
sofrimento e ausência de uma convicção autêntica, o salmista procura criar seus
próprios subterfúgios:
1
– Nostalgia, viver do passado e no passado (5). É o risco que corremos
facilmente, “eu era feliz e não sabia”. Quando fitamos somente o passado,
deixamos de viver o presente nos distanciando assim de qualquer expectativa
otimista sobre o futuro.
2
– Auto-análises (6) – Muito importante o momento de contemplação, de
interiorização. Notamos claramente que este recurso é utilizado nos (Sl. 42 e
103). Mas há um risco, acreditar que a solução vem de dentro de nós, o típico
“pensamento positivo”, assim descaracterizamos a essência máxima sobre a origem
do nosso socorro: “o meu socorro vem do Senhor criador dos céus e da terra”
(Sl. 121). Martin Lloyd Jones, em seu livro “Depressão espiritual” afirma: “a
auto-análise é importante, portanto a incansável introspecção pode levar a
morbidez”.
Clarice Lispector,
escritora brasileira de origem judia, nascida na Ucrânia, afirmou:
“Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro
eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa
dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade, mas estou presa dentro
de mim.”
3
– Sentimento de rejeição (7) – Deus não se preocupa comigo; ele me rejeitou;
sou incapaz de ser abençoado por ele e outras conjecturas que muitas vezes
nutrimos nestes momentos de angústia. E que versículos maravilhosos temos para
firmar nossa convicção que Deus jamais nos desampara: Ex. 13. 21,22;
Js. 1.5; Sl. 23.4; Sl. 27.10; MT. 28.20.
4
– Sensação da falência da graça divina (8a) – Como viveremos sem a graça de
Deus. Graça favor imerecido. O que seria de nós se não fosse a graça do Senhor
à nosso favor. O apóstolo Paulo evidenciou grandemente a graça de Deus:
“justificados pela graça” (Rm. 3.24); “galardão segundo sua graça” (Rm. 4.4);
“pela graça sois salvos...” (Ef. 2.9) e até mesmo o aprendizado que Paulo teve
do próprio Deus: “a minha graça te basta” (2Co. 12.9).
5
– Sensação de falência da promessa divina (8b) – “Caducou a sua promessa”.
Parece-nos que a Palavra do Senhor não tem mais efeito sobre nossas vidas ou
sobre a circunstância que temos vivenciado. Sendo que a própria Palavra nos
conforta: Nm. 23.19; MT. 24.35.
6 –
Questionamentos do caráter divino (9a) – As acusações se tornam cada vez mais
graves, neste momento o salmista questiona a essência de Deus, o Deus imutável
em suas ações e em sua essência. Ele é a fonte de todo bem. O salmista quer
dizer: deixou Deus de ser bom para comigo? Pode, pois a fonte de todo bem,
deixar de ser benigno, negando assim toda a sua essência eterna e perfeita?
Certamente não.
7
– Sensação de falência da misericórdia divina (9b) – Outro atributo de Deus é
questionado. Misericórdia, que é a ação exclusiva de Deus em não nos tratar
conforme merecemos. Deus é misericordioso: Sl. 103.8; Lm. 3.22; Jl. 2.13. Assim
como a graça, misericórdia é um favor divino, e contempla os escolhidos por ele
e não a todas as criaturas, somente os teus filhos (Rm. 9. 14-18).
8 – Sensação de falência da fidelidade
divina (10) – destra sempre será sinônimo do cuidado de Deus para conosco. É
como se o salmista dissesse: Deus deixou de ser fiel! Que acusação gravíssima
do salmista, a mesma que estamos sujeitos. O salmista afirma: Descobri o meu
problema, Deus deixou de agir. Permitam-me a leitura do mesmo versículo na
(NVI): “Então pensei: A razão da minha dor é que a mão direita do Altíssimo não
age mais”.
Mas que versículos confortantes
temos para sustentar nossa esperança em momentos de angustia: Sl. 36.5; Sl.
117.2; Lm. 3.23Is. 41.10.
A
partir do versículo 11, se forma uma nova perícope, na qual o salmista muda
radicalmente de opinião quanto o cuidado de Deus mesmo em meio as suas maiores
perplexidades.
1 – Reconhecimento do cuidado divino
(11) – O Termo “recordo” já tem finalidade de apresentar o passado para sustentar
a esperança do presente. É a realidade de (Lm. 3.19 - 21), em especial o (21).
Após o profeta ter se derramado em lágrimas de perplexidade, nos versículos (19
– 20), lembrando de todo o seu sofrimento, no (21) ele diz: “mas também me
lembro de tudo que pode me dar esperança”.
2 – Reconhecimento do poder divino (12,
13) – Agora o salmista enaltece a soberania de Deus. Uma paráfrase do versículo
pode ser: Considero Senhor, tu és poderoso. Não há como deixar de meditar na
realidade de (Is. 64. 1 – 4). E em seguida o salmista declara: “que deus é tão
grande como o nosso Deus?” (13). Pergunta de fácil resposta quando tudo está
bem, portanto, desafiadora para ser respondida quando tudo vai mal; e é esta a
realidade do salmista, reconhecer a grandeza e poder de Deus em meio as suas
tribulações. Cânticos como os que cantamos: “Não há maior, não há igual a
ti...”; “Não há deus maior...”; “Grandioso és tu, grandioso és tu...”, são
verdades expressas na Bíblia: Êxodo 15. 11; 2Sm. 7. 22.
3 – Reconhecimento da infinidade divina
(14, 15) – O Deus que não tem limites, o Deus que opera milagres (Lc. 1. 37).
Que mudança radical de posicionamento quanto à soberania de Deus. Um contraste
gritante entre os versículos (10 e 14). No (10) o salmista afirma categoricamente
que Deus não age mais, e no (14) ele declara Tu és o Deus dos impossíveis. Não
há como mencionar ardentemente a experiência das testemunhas oculares da
ressurreição de Lázaro: Não, precisamos mais de ti, quando precisamos ignoraste
nosso pedido de socorro. Ele está morto há quatro dias, e cheira mal. Mas nosso
Deus é o único Deus de milagres, e o inconfundível eco da Voz irresistível de
Cristo se faz ouvir: “Lázaro, venha para fora” (Jo. 11). Grande contraste entre
os versículos (10 e 15): No versículo (10) o salmista declara, “a destra do
Altíssimo não age mais”, logo no (15) ele enaltece: “Com o teu braço forte
resgataste o teu povo...” (NVI).
4 – Reconhecimento do pastorado divino
(16 – 20) – O verdadeiro pastor é poeticamente lembrado no versículo (20): “O
teu povo, tu o conduziste, como rebanho, pelas mãos de Moisés e Arão”. E esta
condução é retratada no versículo (16), em que o salmista faz uma poesia a
respeito do livramento de Deus para o seu povo passando a seco no leito do mar
Vermelho (Ex. 14. 21 22).
Deus
é o nosso Pastor, ele é quem nos conduz; seu cuidado está sob e sobre nós, é a
nossa retaguarda e a nossa dianteira. Sejamos conduzidos por ele. Como
Agostinho (Bispo de Hipona) afirmou: “se queres seguir a Deus, deixe-o ir
adiante. Não queiras que ele te siga”.